O fim do Uber como ele é hoje (ou Quando uma coisa é boa demais para ser verdade, normalmente não pa


Convivo diariamente com várias pessoas apaixonadas. E, como toda pessoa apaixonada, seja por seu(ua) companheiro(a), seu time de futebol, seu partido político ou até mesmo pelo seu fabricante de smartphone, o apaixonado fica cego. Não no sentido literal da falta de visão, mas do tipo de cegueira mais súbito e perigoso: a cegueira seletiva. Inúmeros estudos já demostraram a causa desta cegueira o nosso cérebro trabalhar para filtrar e moldar o mundo da forma a nos deixar felizes, dando seletivamente maior ou menor importância aos fatos para corroborar o que queremos, desde o princípio, acreditar.

Também, como consequência da minha atuação profissional, tenho contato o tempo todo com pessoas apaixonadas, no sentido acima, por inovação. Estas pessoas acham de todo coração que Uber, Tesla e similares serão o futuro do mundo dos negócios. Mas serão mesmo?

Existe uma teoria bem sedimentada na área de administração de que os frutos de uma inovação não necessariamente serão colhidos pelo próprio inovador, mas para aqueles que fizerem o melhor uso da inovação. A Apple está aí para comprovar esta teoria para quem quiser ver. Eu, por exemplo, por ser um apaixonado por tecnologia e já ter diversos cabelos brancos, lembro bem o tocador de música digital que tive antes do iPod existir (veja abaixo, de 1998) e do smartphone que tive antes do iPhone existir. No entanto, as empresas que inovaram nestes produtos nem existem mais hoje.

E o caso do Uber? O Uber foi certamente uma inovação. E inovações não precisam vir de tecnologia, muitas vezes podendo surgir como um novo modelo de negócios, como foi o Uber. Mas vamos dissecar um pouco o Uber sem paixão e ver se a empresa realmente tem futuro?

O Uber é, em última análise, uma empresa de transporte público individual, e seu concorrente mais direto é, obviamente, o táxi. Então, para bater seu concorrente, o Uber deve apresentar alguma vantagem competitiva sustentável sobre este. Será que o Uber realmente possui alguma?

Os usuários do Uber dizem que gostam do serviço por que, pelo mesmo preço de um táxi ou menos, podem contar com motoristas mais educados e carros mais confortáveis. Sempre fiquei intrigado em saber como o Uber conseguia isso e a resposta está clara: Não consegue! Mais uma vez aquela lei da vida de que "Não existe almoço grátis" vai ser aplicada. O primeiro sinal disso vem de uma greve de motoristas do Uber de São Paulo e outras cidades do Brasil que está agendada para breve, sendo que a motivação da greve será pressionar o Uber para aumentar o valor das tarifas pagas aos motoristas. Estes argumentam que os valores atuais não permitirão fazer a manutenção e eventual renovação dos carros. E, é claro: carros mais confortáveis custam mais caro para comprar e para manter. Além disso, motoristas mais educados provavelmente possuem expectativas de remuneração, após deduzidos os custos, maiores do que os motoristas de táxi comuns.

Tendo a achar que a adoção ao Uber foi uma febre que passou. Ou o Uber aumentará seus preços para remunerar melhor os educados motoristas e seus carros confortáveis ou alguns motoristas logo perceberão (alguns já perceberam) que o negócio não compensa. No final, se o Uber aumentar seus preços poderá sobreviver e ocupar no mercado uma posição estratégica conhecida como "De nicho", transportando com conforto pessoas que se dispuserem a pagar mais pelo serviço. E, convenhamos, não há nenhuma inovação nisso. Se insistir em concorrer em preço com os táxis comuns, perderá motoristas, a disponibilidade de motoristas irá cair, os usuários ficarão insatisfeitos e o serviço morrerá. Os motoristas que ficarem serão em sua maioria pessoas que conseguiram comprar um bom carro com seus trabalhos anteriores, estão desempregados e, sem perspectivas de curto prazo, serão motoristas do Uber como bico. Já sabemos o que podemos esperar, a longo prazo, de um serviço assim, certo?

É esperado, no mundo dos negócios, que você ache bata palmas para frases do tipo: O Uber é um exemplo de sucesso em que a inovação contínua quebra paradigmas da velha economia e é o prenúncio da Economia 3.0. Dá até para ganhar dinheiro fazendo uma palestra assim, não dá? Muita gente se inscreveria para que os colegas de trabalho não achem que ele está atrasado, preso no passado e ultrapassado para o mundo atual. E ai dele se, antes, durante, ou após a palestra, externar dúvidas sobre o Uber.

Acho muito mais equilibrada uma visão do tipo:

  1. A inovação é a chave para o sucesso nos negócios hoje

  2. No entanto, nem toda inovação dá certo

  3. Mesmo quando dá certo, nem sempre o inovador fica com os lucros

E você? Acha que o Uber tem futuro?

Ricardo Drummond

#PlanejamentoEstratégico #Competitividade #Economia

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